O debate em torno das enchentes urbanas ganhou um nome recentemente: cidade esponja. Daugliesi Giacomasi Souza, fundadora da DGdecor, acompanha a repercussão desse conceito, que propõe substituir o combate direto à água da chuva por soluções capazes de absorvê-la, reter parte dela e devolvê-la ao solo de forma controlada. Florianópolis oficializou a adoção desse modelo em junho de 2026, poucos meses depois de outras cidades brasileiras, como Curitiba, Belo Horizonte, Recife e Niterói, começarem a testar iniciativas inspiradas na mesma lógica.
O momento não é coincidência. Quase dois mil municípios brasileiros são considerados altamente suscetíveis a inundações, e tragédias recentes, como a enchente que atingiu o Rio Grande do Sul, deixaram mais de cem mortos e milhares de desabrigados, evidenciando os limites do modelo tradicional de urbanização baseado em concreto e asfalto. Este artigo apresenta o que caracteriza uma cidade-esponja, por que o Brasil se tornou terreno fértil para essa discussão e quais soluções já saem do papel em diferentes municípios do país.
O que é uma cidade esponja?
O conceito parte de uma inversão simples, mas profunda: em vez de expulsar a água da chuva o mais rápido possível por meio de bueiros e canalizações, a cidade esponja é projetada para absorver, armazenar e reutilizar essa água, imitando o funcionamento de ecossistemas naturais como brejos e florestas. Pavimentos permeáveis, jardins de chuva, telhados verdes e áreas de retenção temporária substituem, nesse modelo, a lógica de escoamento imediato que orientou a urbanização das últimas décadas.
Como pontua Daugliesi Giacomasi Souza, a ideia foi desenvolvida nos anos 2000 pelo arquiteto e paisagista chinês Kongjian Yu, que a aplicou em mais de setenta cidades chinesas, incluindo o projeto emblemático do parque Yanweizhou, em Jinhua. O falecimento recente de Yu reacendeu debates sobre o tema em diferentes países, reforçando a urgência da pergunta que ele passou décadas tentando responder: como preparar cidades para conviver com chuvas intensas, em vez de apenas tentar vencê-las.
Por que o Brasil se tornou terreno fértil para essa discussão?
Durante décadas, o modelo de urbanização predominante no país substituiu áreas naturais por ruas asfaltadas, calçadas de concreto e grandes edificações, impermeabilizando o solo e impedindo a infiltração natural da água da chuva. Esse padrão de crescimento, replicado em praticamente todas as grandes cidades brasileiras, criou uma vulnerabilidade estrutural que fica evidente a cada temporada de chuvas mais intensas.

Conforme sustenta Daugliesi Giacomasi Souza, a tragédia que atingiu o Rio Grande do Sul, somada a enchentes recorrentes em São Paulo e Recife, e ao fato de mais de 1,2 milhão de pessoas viverem em áreas de risco só em Salvador, tornou impossível tratar o tema como problema pontual de determinada região do país. Quase dois mil municípios brasileiros hoje são classificados como altamente suscetíveis a inundações, número que explica por que o conceito de cidade esponja deixou de ser curiosidade importada e passou a interessar diretamente gestores públicos brasileiros. Cada nova temporada de chuvas mais intensas reforça esse cenário, expondo com clareza a distância entre a infraestrutura existente e o volume de água que as cidades brasileiras já precisam absorver com frequência cada vez maior.
As soluções que já saem do papel
Diferente do que se imagina, adotar princípios de cidade esponja não exige necessariamente grandes obras de infraestrutura nem investimentos milionários imediatos. Jardins de chuva, pequenos canteiros que captam e filtram a água diretamente onde ela cai, e pisos drenantes em bairros residenciais já produzem impacto significativo, mesmo quando aplicados em escala reduzida dentro de projetos de menor orçamento. Telhados verdes em edificações existentes e a simples substituição de calçadas convencionais por revestimentos permeáveis completam esse conjunto de intervenções, viáveis tanto em grandes obras públicas quanto em reformas residenciais pontuais.
Na avaliação de Daugliesi Giacomasi Souza, o decreto publicado por Florianópolis em junho de 2026, estabelecendo diretrizes municipais para ampliar a permeabilidade urbana, representa um passo importante rumo à institucionalização dessas práticas no país. Municípios como Balneário Camboriú e Camboriú já estudam ou desenvolvem ações alinhadas ao mesmo modelo, sinalizando que a discussão começa a sair do campo teórico e ganhar formato de política pública concreta em diferentes regiões do Brasil.
O maior obstáculo não é técnico
Especialistas que estudam o tema no Brasil concordam em um ponto central: a limitação não está na disponibilidade de tecnologia ou conhecimento técnico, e sim na prioridade política atribuída ao assunto pelos gestores urbanos. Soluções de microescala, viáveis em bairros e até em residências individuais, já existem e funcionam, mas dependem de decisão institucional para saírem do papel e se tornarem parte efetiva do planejamento das cidades.
Segundo relata Daugliesi Giacomasi Souza, sem essa mudança na hierarquia de prioridades do planejamento urbano brasileiro, o conceito de cidade esponja corre o risco de permanecer apenas como referência interessante em debates acadêmicos, sem alcançar a escala necessária para reduzir de fato o impacto de enchentes recorrentes. Transformar a água da chuva de ameaça em recurso reaproveitável depende, no fim, muito mais de vontade política do que de qualquer limitação de engenharia. Talvez o maior aprendizado das cidades esponja seja perceber que a água nunca foi o problema, mas sim a forma como as cidades escolheram se relacionar com ela.

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