Política e tecnologia: nova lei muda regras para data centers e pode acelerar a infraestrutura de IA no Brasil

Lars Edevik

O novo regime tributário para data centers cria incentivos, exige energia de menor emissão e pode mudar os investimentos em infraestrutura digital no país.

A relação entre política e tecnologia ganhou um novo capítulo no Brasil em setembro de 2026. A sanção da Lei 15.504, que criou o Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter, o Redata, estabelece incentivos fiscais para empresas que instalarem ou ampliarem centros de processamento de dados no país. A medida interessa diretamente ao mercado de inteligência artificial, computação em nuvem e serviços digitais, porque essas tecnologias dependem de grandes estruturas capazes de armazenar e processar enormes volumes de informação. (Senado Federal)

Mais do que uma mudança tributária, a nova legislação levanta uma questão que deve ganhar espaço nos próximos meses: como o Brasil pretende ampliar sua infraestrutura digital sem aumentar proporcionalmente os impactos sobre energia, água e meio ambiente? A resposta passa pelas contrapartidas estabelecidas para as empresas beneficiadas e também pela capacidade de transformar investimentos em infraestrutura em serviços efetivamente disponíveis para o mercado brasileiro. Para consumidores, empresas e profissionais de tecnologia, entender essas regras ajuda a antecipar mudanças que podem afetar a oferta de serviços digitais e de inteligência artificial.

O que muda com o novo regime para data centers?

O Redata cria uma série de incentivos para empresas que instalarem ou ampliarem data centers destinados a atividades como computação em nuvem, processamento de alto desempenho e treinamento ou inferência de modelos de inteligência artificial. Entre os benefícios previstos está a suspensão de tributos como Imposto de Importação, PIS/Cofins, PIS/Cofins-Importação e IPI na aquisição de determinados equipamentos. Depois do cumprimento das condições estabelecidas, essas suspensões podem ser convertidas em isenções. (Senado Federal)

Na prática, a mudança pode reduzir parte do custo de implantação de uma infraestrutura que exige servidores, componentes eletrônicos, sistemas de armazenamento, equipamentos de rede e outras tecnologias especializadas. O governo estima que o benefício tributário alcance cerca de R$ 5,2 bilhões em 2026, com valores menores nos dois anos seguintes. A legislação, porém, não estabelece apenas vantagens fiscais: para participar do regime, as empresas precisam cumprir compromissos relacionados ao mercado interno, investimentos, sustentabilidade e fornecimento de energia. (Senado Federal)

Um dos pontos mais relevantes para o ecossistema digital é a exigência de que pelo menos 10% do fornecimento efetivo de processamento, armazenamento e tratamento de dados instalado seja direcionado ao mercado brasileiro. A norma também prevê investimentos equivalentes a 2% do valor dos produtos adquiridos com o benefício, além de regras específicas para empresas instaladas nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Parte dos investimentos em projetos e programas de fomento à economia digital também deverá ser direcionada a essas regiões. (Senado Federal)

Por que data centers são importantes para inteligência artificial?

A expansão da inteligência artificial depende de uma infraestrutura física que muitas vezes fica invisível para o usuário. Cada interação com serviços digitais envolve servidores, redes, armazenamento e sistemas de processamento que precisam operar continuamente. Modelos avançados de IA também demandam capacidade computacional significativa durante as etapas de treinamento e utilização, tornando os data centers uma peça estratégica da economia digital.

Esse cenário ajuda a explicar por que a política de infraestrutura digital passou a envolver questões que vão muito além dos impostos. Segundo informações divulgadas pelo Senado, o Brasil possui pelo menos 160 centros especializados em processamento de dados, sendo 110 deles localizados na Região Sudeste. Especialistas ouvidos pelo Congresso também destacaram que o avanço da inteligência artificial aumenta a demanda por energia elétrica, criando um desafio adicional para a expansão desse mercado. (Senado Federal)

A nova legislação tenta relacionar o crescimento da infraestrutura digital a critérios ambientais. As empresas interessadas no Redata precisam assumir compromissos de utilização de energia de fontes renováveis ou de baixa emissão e atender a parâmetros de eficiência hídrica para o resfriamento dos equipamentos. Também deverão publicar relatórios de sustentabilidade com informações sobre consumo de água, fontes de energia e outros indicadores. (Senado Federal)

Para empresas brasileiras, esse movimento pode significar maior disponibilidade de serviços de nuvem, processamento de dados e ferramentas baseadas em inteligência artificial. Startups e negócios digitais podem se beneficiar de uma infraestrutura local mais ampla, dependendo dos preços e das condições comerciais que surgirem. Para o consumidor, porém, o efeito não precisa aparecer imediatamente: a construção de grandes instalações exige planejamento, investimentos, equipamentos, conexão de rede e disponibilidade energética antes de gerar capacidade adicional.

Quais são os próximos desafios para a infraestrutura digital brasileira?

A implementação do Redata ainda dependerá de regulamentações e da habilitação das empresas interessadas. A própria legislação determina que alguns critérios, especialmente os relacionados à sustentabilidade, sejam detalhados posteriormente pelo Poder Executivo. Isso significa que parte importante dos efeitos práticos da política ainda dependerá das regras que serão estabelecidas para colocar o regime em funcionamento. (Senado Federal)

Outro desafio está na infraestrutura necessária para acompanhar os novos investimentos. Um data center não depende apenas de espaço físico e servidores. É preciso garantir energia, conectividade de alta capacidade, sistemas de refrigeração, segurança cibernética e disponibilidade operacional. Caso esses elementos não avancem de forma coordenada, incentivos tributários isoladamente podem não ser suficientes para transformar projetos anunciados em capacidade digital efetivamente disponível.

A discussão também tende a se conectar à estratégia brasileira para inteligência artificial. Em setembro, o debate sobre infraestrutura digital ganhou espaço junto com discussões sobre soberania tecnológica, capacidade computacional e desenvolvimento de soluções nacionais. Ao mesmo tempo, o Congresso continua discutindo diferentes aspectos da regulação tecnológica, enquanto órgãos públicos trabalham em temas relacionados à proteção de dados, segurança e governança digital. A expansão dos data centers, portanto, ocorre dentro de um cenário regulatório mais amplo que deverá influenciar empresas e usuários.

Nos próximos meses, a atenção deve se concentrar na regulamentação do Redata, nos projetos que poderão buscar habilitação e na capacidade de o país ampliar energia e conectividade para acompanhar a demanda por computação. Também será possível observar se os incentivos conseguem estimular investimentos fora dos principais polos tecnológicos e se as contrapartidas ambientais serão suficientes para acompanhar o crescimento do processamento de dados. Para brasileiros, empresas e profissionais de tecnologia, o principal efeito dessa mudança será percebido gradualmente, à medida que mais infraestrutura sustente serviços de nuvem, inteligência artificial e aplicações digitais no mercado nacional.

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