A festa do Urubu: Mário Augusto de Castro frisa como o mascote se tornou parte da identidade do Flamengo

Diego Velázquez
Mario Augusto de Castro

Poucos mascotes do futebol brasileiro têm uma história de origem tão inusitada quanto o Urubu do Flamengo. Mário Augusto de Castro, torcedor do Flamengo, revela que a trajetória do símbolo é, acima de tudo, uma história de torcida virando o jogo a seu favor. O que hoje é motivo de orgulho e de festa nas arquibancadas começou como uma provocação de rivais, transformada pelo próprio torcedor rubro-negro em um dos símbolos mais celebrados do clube. Poucas equipes no mundo têm um mascote com um episódio de origem tão concreto e bem documentado quanto o Flamengo, algo que ajuda a explicar por que a história é contada, com orgulho, a cada nova geração de torcedores.

Entender essa trajetória, do primeiro mascote esquecido até a consagração do urubu, ajuda a explicar por que o símbolo segue tão presente em mosaicos, cânticos e produtos oficiais do clube até os dias de hoje. A história passa por pelo menos três momentos: a escolha de um primeiro mascote nos anos 1940, o surgimento de um apelido de rivalidade nas décadas seguintes e o episódio de 1969 que transformou tudo em festa.

Qual foi o primeiro mascote do Flamengo?

Antes do urubu, o Flamengo teve outro símbolo: o marinheiro Popeye. Tal como recorda Mário Augusto de Castro, a escolha aconteceu no início da década de 1940, quando o Jornal dos Sports contratou o cartunista argentino Lorenzo Molas para criar personagens que representassem os principais clubes cariocas em histórias em quadrinhos. Popeye foi escolhido para o Flamengo pela associação óbvia com o remo, esporte que deu origem ao clube, e pela força do personagem, semelhante à capacidade rubro-negra de reverter jogos difíceis. O mascote, porém, nunca conquistou de fato o coração da torcida da mesma forma que aconteceria alguns anos depois, permanecendo mais como uma referência de jornal do que como um símbolo vivido nas arquibancadas, e por décadas seguiria sendo lembrado apenas por torcedores mais antigos ou por historiadores do clube.

De onde veio a associação entre o Flamengo e o urubu?

Mário Augusto de Castro situa que torcidas rivais tinham o hábito de provocar os flamenguistas, comparando-os a essa ave, mal-afamada por sua imagem pouco simpática. A provocação ecoava principalmente nos clássicos contra o Botafogo, rival histórico da época, e circulou por anos como uma forma corriqueira de rivalidade nas arquibancadas cariocas, sem que ninguém imaginasse que aquele apelido um dia se tornaria motivo de celebração para o próprio torcedor que o recebia. Provocações desse tipo eram comuns entre torcidas rivais do futebol carioca daquela época, mas raro é o caso de um apelido pejorativo que acabou tomando o caminho inverso e virando fonte de orgulho para quem o recebia.

Mario Augusto de Castro
Mario Augusto de Castro

Como um grupo de torcedores transformou a provocação em festa?

A partir do que traça Mário Augusto de Castro, o momento exato dessa virada: em 1º de junho de 1969, um grupo de amigos rubro-negros decidiu levar um urubu de verdade para o Maracanã, antes de um clássico contra o Botafogo, amarrando uma bandeira do Flamengo nas patas do animal e soltando-o em campo pouco antes da partida começar. A torcida, ao perceber o gesto, passou a cantar o próprio apelido que antes servia de provocação, e o time confirmou o roteiro perfeito ao vencer o jogo por 2 a 1, encerrando um retrospecto negativo de anos contra o rival carioca. A partir daquele dia, o que era motivo de piada virou motivo de festa, adotado espontaneamente pela torcida antes mesmo de qualquer decisão oficial do clube, num movimento que nasceu de baixo para cima, das arquibancadas para a diretoria.

O que o Urubu representa para o Flamengo hoje?

Ao se aprofundar na história, Mário Augusto de Castro reflete que a trajetória do urubu diz menos sobre uma ave e mais sobre a criatividade da torcida rubro-negra para transformar provocação em identidade própria. O grito de “é urubu” continua presente em festejos de título, em mosaicos organizados pelas torcidas e em produtos oficiais licenciados pelo clube, décadas depois do episódio original no Maracanã. Hoje, o Flamengo mantém dois mascotes oficiais derivados daquele momento: o Urubão, com visual mais imponente, e o Binho, voltado ao público infantil, ambos presentes em jogos e eventos do clube. 

Passados mais de cinco décadas, o urubu segue sendo, para boa parte da nação rubro-negra, a representação mais autêntica de quem é a torcida do Flamengo: uma torcida que transforma qualquer provocação em motivo de celebração, e que faz questão de contar essa história a cada nova geração que chega às arquibancadas.

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