Novos dados sobre o uso de inteligência artificial mostram como a tecnologia avança entre profissionais e quais mudanças podem chegar ao mercado brasileiro.
A inteligência artificial deixou de ser apenas uma promessa associada ao futuro do trabalho e passou a fazer parte de atividades profissionais concretas. Um novo levantamento divulgado pelo Google nesta semana mostra diferenças importantes na forma como trabalhadores de diferentes países e profissões estão incorporando ferramentas de IA, além de indicar que o Brasil apresenta um nível de adoção acima do que seria esperado considerando seu nível de renda. Os dados fazem parte do AI & Economy ATLAS, iniciativa que reúne informações sobre como a tecnologia vem sendo utilizada na economia global.
O interesse pelo assunto cresce porque a discussão já não envolve somente quais empregos podem ser afetados pela inteligência artificial. A questão também é entender quais tarefas estão sendo automatizadas, quais atividades podem ganhar produtividade e quais habilidades passam a ter mais importância. Para trabalhadores, estudantes e empresas brasileiras, acompanhar essa mudança pode ser decisivo para compreender o mercado de trabalho que está se formando agora.
O que os novos dados mostram sobre o uso de IA no trabalho
Segundo os dados apresentados pelo Google em 15 de setembro, a utilização de inteligência artificial varia bastante conforme a profissão e a região. Em países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, atividades ligadas à computação, matemática, negócios e finanças aparecem entre aquelas com maior utilização de IA. Já em economias fora da OCDE, ocupações administrativas, educação, mídia, entretenimento e atividades relacionadas à criação também apresentam níveis relevantes de uso.
Um dos pontos que chama atenção para o público brasileiro é a posição do país no levantamento. O Google afirma que o Brasil apresenta uma adoção de IA superior àquela que seria esperada considerando seu Produto Interno Bruto per capita. Isso significa que a utilização da tecnologia não está restrita aos mercados mais ricos e pode avançar rapidamente em economias nas quais empresas e profissionais encontram na automação uma forma de aumentar produtividade, reduzir tarefas repetitivas e ampliar a capacidade de trabalho.
O levantamento também indica que a IA já está sendo usada em tarefas práticas, e não apenas em experiências com chatbots. No Brasil e na Alemanha, por exemplo, 7% do uso de IA relacionado ao trabalho está associado a tarefas manuais, como diagnóstico e solução de problemas em equipamentos, percentual 1,4 vez superior à média global apresentada pelo estudo. Isso amplia a discussão sobre inteligência artificial, porque mostra que seus efeitos podem alcançar ambientes que tradicionalmente não eram associados ao trabalho digital.
Por que a produtividade pode aumentar sem significar menos trabalho
Outro dado divulgado pelo Google ajuda a explicar por que empresas estão investindo tanto em inteligência artificial. Uma pesquisa realizada com mais de 600 cientistas dos Estados Unidos e do Reino Unido apontou que quase metade deles utiliza algum tipo de IA diariamente. Esses profissionais relataram uma economia de quase sete horas semanais graças ao uso da tecnologia, principalmente em atividades que podem ser aceleradas ou parcialmente automatizadas.
Isso não significa automaticamente que as horas economizadas desaparecerão ou que determinadas profissões deixarão de existir. Em muitos casos, o ganho de produtividade pode ser convertido em tempo para análise, criação, atendimento, planejamento ou realização de tarefas que dependem mais de julgamento humano. O próprio levantamento, porém, aponta um problema importante: quando a IA acelera uma etapa do processo, outras fases podem se transformar em gargalos, como validação de resultados, experimentos físicos e testes clínicos.
Para empresas brasileiras, essa diferença é relevante. Adotar uma ferramenta de IA não garante produtividade simplesmente porque ela está disponível. É necessário revisar processos, definir quais tarefas podem ser automatizadas e estabelecer mecanismos para conferir informações produzidas por sistemas generativos. Em áreas que trabalham com dados financeiros, informações pessoais, contratos, código ou decisões importantes, a supervisão humana continua sendo uma etapa essencial.
Também existe uma mudança nas habilidades valorizadas pelo mercado. Profissionais que sabem utilizar ferramentas digitais, formular instruções claras, avaliar respostas produzidas por IA e identificar erros podem ganhar espaço em processos de transformação digital. Ao mesmo tempo, conhecimentos específicos da área continuam importantes, justamente porque alguém precisa avaliar se o resultado produzido pela máquina faz sentido no contexto real.
O que essa tendência pode mudar para brasileiros
A evolução observada nos dados do AI & Economy ATLAS sugere que a discussão sobre inteligência artificial no Brasil deve ir além da substituição de empregos. Um dos efeitos mais importantes pode estar na transformação das tarefas realizadas dentro de uma mesma profissão. Um profissional de marketing, por exemplo, pode utilizar IA para organizar informações e criar versões iniciais de conteúdos, enquanto um programador pode automatizar partes da documentação ou da análise de código. O resultado é uma reorganização do trabalho, e não necessariamente o desaparecimento imediato da ocupação.
Esse processo também cria oportunidades para pequenos negócios. Ferramentas de IA podem reduzir a barreira de entrada para atividades que antes exigiam equipes maiores, como produção de materiais, atendimento inicial, análise de documentos, organização de informações e tradução. Para empreendedores brasileiros, isso pode significar acesso a recursos que anteriormente estavam concentrados em empresas com maior capacidade financeira ou tecnológica.
Ao mesmo tempo, existem riscos que não podem ser ignorados. Quanto maior a utilização de sistemas de IA, maior a necessidade de verificar informações, proteger dados utilizados nas ferramentas e compreender como os resultados são produzidos. A velocidade de adoção também pode criar diferenças entre trabalhadores que receberam treinamento e aqueles que simplesmente passaram a utilizar ferramentas sem orientação adequada.
Os próximos meses devem mostrar se o avanço da IA continuará concentrado em determinadas áreas ou se chegará de maneira mais ampla a ocupações administrativas, serviços, indústria, educação e atividades especializadas. A própria expansão de ferramentas capazes de trabalhar com texto, áudio, imagens, programação e dados indica que a tecnologia está se tornando uma camada adicional de produtividade em diferentes setores.
Para o Brasil, o principal ponto de atenção é que a adoção já está acontecendo. Os novos dados mostram que o país não está apenas observando a transformação provocada pela inteligência artificial, mas participando dela em ritmo relevante. A tendência é que empresas passem a avaliar cada vez mais quais processos podem ser automatizados, enquanto profissionais precisarão desenvolver capacidade de trabalhar em conjunto com sistemas inteligentes. Nesse cenário, entender IA deixa de ser apenas uma questão de acompanhar uma tendência tecnológica e passa a fazer parte da preparação para as mudanças do mercado digital.
Fontes utilizadas:

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