Com regras mais rígidas para conteúdos sintéticos, o uso de IA nas campanhas brasileiras entra no centro do debate sobre transparência, desinformação e proteção do eleitor.
A inteligência artificial deixou de ser apenas uma ferramenta para produzir textos, imagens e vídeos e passou a ocupar um espaço estratégico nas eleições brasileiras. Em 2026, com a propaganda eleitoral já liberada na internet desde 16 de agosto e o horário eleitoral gratuito iniciado em 28 de agosto, candidatos e partidos enfrentam regras específicas para o uso de tecnologias capazes de alterar imagens, vozes e outros conteúdos digitais. O tema ganhou ainda mais importância porque vídeos manipulados podem circular rapidamente nas redes sociais e aplicativos de mensagens, dificultando a distinção entre uma declaração real e uma produção artificial. (Tribunal Superior Eleitoral)
Para o eleitor, a principal dúvida deixou de ser apenas se uma imagem ou vídeo é verdadeiro. Também é preciso entender quando a inteligência artificial pode ser utilizada legalmente em uma campanha, quais conteúdos precisam ser identificados e o que acontece quando uma tecnologia é empregada para fabricar uma declaração atribuída a uma pessoa. As regras atuais do Tribunal Superior Eleitoral estabelecem obrigações de transparência e restrições específicas para conteúdos sintéticos, colocando tecnologia, privacidade e integridade eleitoral no mesmo debate. (Tribunal Superior Eleitoral)
Por que a inteligência artificial virou um problema político nas eleições de 2026?
A expansão das ferramentas generativas tornou muito mais simples produzir materiais digitais com aparência profissional. Uma campanha pode utilizar softwares para tratamento de áudio, edição de imagens, criação de elementos gráficos e outras tarefas de produção. O problema aparece quando a tecnologia é usada para fazer uma pessoa parecer dizer ou fazer algo que não aconteceu, especialmente quando o material é apresentado ao público como se fosse autêntico. É nesse ponto que a discussão sobre IA deixa de ser apenas tecnológica e passa a envolver direitos políticos, liberdade de expressão e qualidade da informação. (Tribunal Superior Eleitoral)
O TSE atualizou as regras para as eleições de 2026 justamente para enfrentar esse cenário. A norma determina que conteúdos sintéticos multimídia produzidos ou significativamente alterados por inteligência artificial precisam informar de maneira explícita, destacada e acessível que houve fabricação ou manipulação tecnológica. A exigência alcança diferentes formatos, incluindo áudio, vídeo e imagens. Em outras palavras, utilizar IA não é automaticamente proibido, mas esconder do público uma manipulação relevante pode gerar problemas eleitorais. (Tribunal Superior Eleitoral)
A preocupação aumenta porque a tecnologia também permite ampliar rapidamente o alcance de uma mensagem. Um conteúdo manipulado pode ser replicado por perfis, grupos e sistemas automatizados em pouco tempo, atingindo milhares de pessoas antes que uma checagem consiga esclarecer o contexto. O próprio TSE e a Advocacia-Geral da União firmaram em agosto um acordo de cooperação relacionado ao uso de IA nas eleições, com atenção a riscos como desinformação sintética, deepfakes, automação ilícita e microdirecionamento de conteúdos manipulados. (Tribunal Superior Eleitoral)
O que o eleitor precisa observar em vídeos, áudios e imagens feitos com IA?
Uma das mudanças mais importantes para quem acompanha a campanha pela internet é a necessidade de observar a identificação de conteúdos produzidos ou modificados por inteligência artificial. A regulamentação determina que essa informação seja apresentada de acordo com o formato utilizado. Em imagens estáticas, por exemplo, a norma prevê identificação por rótulo ou marca d’água e audiodescrição; em materiais audiovisuais, a informação também precisa aparecer de forma compatível e acessível ao público. (Tribunal Superior Eleitoral)
Isso não significa, porém, que todo material visual com aparência artificial seja automaticamente uma fraude eleitoral. Ferramentas digitais podem ser utilizadas para melhorar qualidade de imagem ou som, e a própria regulamentação diferencia determinados ajustes técnicos de alterações que modificam substancialmente o conteúdo. Para o usuário comum, a recomendação mais importante é evitar decisões baseadas exclusivamente em um vídeo viral, especialmente quando ele apresenta uma fala surpreendente, uma imagem fora de contexto ou uma declaração que não aparece em canais oficiais. (Tribunal Superior Eleitoral)
Há ainda uma restrição especialmente relevante para o período próximo à votação. A legislação eleitoral proíbe a publicação, republicação e impulsionamento pago de novos conteúdos sintéticos produzidos ou alterados por IA que utilizem imagem, voz ou manifestação de candidato ou pessoa pública durante as 72 horas anteriores e as 24 horas posteriores ao término da eleição. A regra busca reduzir a possibilidade de uma manipulação artificial de última hora influenciar o eleitor antes que exista tempo suficiente para contestação ou verificação. (Tribunal Superior Eleitoral)
Outro ponto importante é que conteúdos fabricados ou manipulados para divulgar fatos notoriamente falsos ou gravemente descontextualizados podem provocar consequências eleitorais. O regulamento também proíbe o uso de deepfake para prejudicar ou favorecer uma candidatura. Dependendo da situação, as consequências podem envolver remoção do conteúdo, aplicação de multas e outras medidas previstas na legislação eleitoral, o que mostra que a discussão sobre IA já ultrapassou o campo experimental e entrou definitivamente no ambiente regulatório. (Tribunal Superior Eleitoral)
Como a regulação da IA pode mudar a relação entre campanhas, plataformas e eleitores?
A eleição de 2026 funciona como um grande teste para a governança da inteligência artificial no Brasil. Além das regras específicas do TSE, o Congresso continua discutindo normas mais amplas para tecnologias digitais, incluindo propostas relacionadas à proteção de dados pessoais e à transparência das plataformas. Em 26 de agosto, por exemplo, a Câmara divulgou um projeto que pretende obrigar serviços digitais e redes sociais a apresentar informações simplificadas sobre como utilizam dados pessoais, incluindo questões relacionadas a compartilhamento e uso comercial. (Portal da Câmara dos Deputados)
Essa combinação de regulação eleitoral e proteção de dados aponta para uma tendência importante: o cidadão deverá ter cada vez mais contato com informações sobre como sistemas digitais produzem, selecionam e distribuem conteúdo. Para as empresas de tecnologia, isso significa maior necessidade de mecanismos de identificação, moderação e transparência. Para campanhas políticas, significa que o uso de ferramentas de automação e inteligência artificial passa a exigir processos internos mais cuidadosos, principalmente quando a tecnologia interfere na produção de mensagens destinadas ao eleitor.
O desafio, entretanto, não termina com a existência das regras. A velocidade das plataformas digitais pode ser muito superior à velocidade de uma investigação ou de uma decisão judicial. Uma publicação pode desaparecer, ser modificada ou ser copiada para outras redes em poucos minutos. Por isso, a capacidade de verificar informações e compreender sinais de manipulação também se torna uma espécie de competência digital necessária para quem acompanha política pela internet.
O cenário deve ganhar importância nas próximas semanas, conforme a campanha eleitoral avançar e o volume de conteúdo digital aumentar. O TSE já colocou a inteligência artificial entre os pontos centrais das regras de propaganda e reforçou medidas contra desinformação, enquanto instituições públicas discutem formas de melhorar a governança tecnológica. (Tribunal Superior Eleitoral)
Para o eleitor brasileiro, a tendência é que a tecnologia continue transformando a maneira de fazer campanha e disputar atenção. A inteligência artificial pode reduzir custos, acelerar a produção de materiais e ampliar recursos de comunicação, mas também aumenta a necessidade de transparência. O principal desafio será encontrar equilíbrio entre inovação e proteção da integridade eleitoral. Nas próximas eleições, saber identificar conteúdos sintéticos, verificar informações e compreender como as plataformas distribuem mensagens poderá ser tão importante quanto acompanhar os próprios candidatos e suas propostas.
Fontes utilizadas
- TSE: Parceria entre TSE e Google amplia proteção contra uso indevido de IA nas eleições
- TSE: Eleições 2026 e início do horário eleitoral gratuito
- TSE: TSE e AGU firmam acordo de boas práticas sobre IA nas Eleições 2026
- TSE: Resolução nº 23.755/2026
- TSE: Regras sobre uso de IA na campanha eleitoral de 2026
- TSE: Resolução nº 23.732/2024
- Câmara dos Deputados: Projeto sobre transparência no uso de dados pessoais por plataformas
- Câmara dos Deputados: PL 2338/2023, marco regulatório da inteligência artificial
- TSE: Sistema de Alertas de Desinformação Eleitoral (SIADE)

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