Empresas terão de repensar redes e criptografia antes da maturidade quântica

Redação Blog Tech

Empresas e órgãos públicos que dependem de redes digitais começam a lidar com uma preocupação que ainda não faz parte da rotina da maioria dos usuários: a necessidade de preparar sistemas criptográficos para o avanço da computação quântica. Esse movimento ganhou um exemplo relevante em 12 de outubro de 2026, quando a IonQ anunciou um acordo definitivo para adquirir a Elisity, companhia americana de cibersegurança especializada em arquitetura Zero Trust.

A transação pode chegar a US$ 1,3 bilhão e será realizada integralmente por meio de ações, segundo o comunicado oficial da IonQ. O negócio ainda depende do cumprimento das condições habituais de fechamento. Mais do que ampliar o portfólio da empresa de computação quântica, a operação aproxima duas frentes que costumavam ser tratadas separadamente: a proteção de dados contra futuras capacidades quânticas e o controle sobre quem pode acessar redes corporativas.

Por que a criptografia entrou no radar antes dos computadores quânticos

A computação quântica ainda não se tornou uma tecnologia de uso comercial amplo, mas sua evolução já influencia decisões de segurança digital. O motivo é que sistemas criptográficos considerados seguros atualmente podem se tornar vulneráveis diante de computadores quânticos suficientemente avançados. Essa possibilidade leva organizações a avaliar desde já como migrar para métodos capazes de resistir a esse cenário.

O risco também está relacionado à estratégia conhecida como “colheita agora, descriptografe depois”. Nesse modelo, um invasor captura dados protegidos no presente e os armazena para tentar decodificá-los no futuro, caso disponha de recursos tecnológicos mais avançados. Informações com valor duradouro, como registros corporativos, dados de clientes e documentos estratégicos, podem permanecer expostas por longos períodos.

Por isso, a chamada segurança pós-quântica não depende apenas da chegada de máquinas quânticas mais poderosas. Ela envolve o planejamento antecipado da substituição de mecanismos criptográficos, a identificação de dados sensíveis e a revisão de sistemas que podem permanecer em operação durante muitos anos. Para empresas brasileiras conectadas a cadeias globais, serviços em nuvem e fornecedores internacionais, esse planejamento pode se tornar parte da governança de segurança digital.

O papel do modelo Zero Trust

A Elisity atua em uma camada diferente, mas complementar, da proteção digital. Sua plataforma é voltada à segmentação de redes e ao controle de acesso, dentro do modelo Zero Trust. Em vez de presumir que um usuário, dispositivo ou sistema é confiável apenas por estar dentro de uma rede corporativa, esse conceito exige verificações contínuas e limita o alcance de cada conexão.

Na prática, a microssegmentação divide a infraestrutura em áreas menores, reduzindo a possibilidade de que um invasor se movimente livremente depois de obter acesso inicial. O controle mais detalhado também pode ajudar organizações a aplicar políticas diferentes conforme o perfil do usuário, o dispositivo utilizado ou o recurso que está sendo acessado. A proposta não elimina ataques, mas busca diminuir o impacto de uma invasão.

A IonQ pretende combinar essa capacidade com suas tecnologias de criptografia pós-quântica e distribuição quântica de chaves. A união, conforme descrita pela companhia, deve formar uma oferta de segurança orientada tanto às ameaças atuais quanto à preparação das infraestruturas para a era quântica. O foco inclui empresas e órgãos públicos que precisam proteger redes distribuídas e informações de alto valor.

Uma aquisição com impacto além do laboratório

Segundo a IonQ, a Elisity possui uma base global de clientes corporativos e relacionamento com diretores de segurança da informação. A empresa também afirma que a companhia atua em um mercado de mais de US$ 10 bilhões relacionado à microssegmentação de redes. Esses elementos ajudam a explicar por que a aquisição foi estruturada como uma expansão para o mercado de segurança empresarial, e não apenas como uma colaboração tecnológica.

O movimento indica que a preparação quântica começa a influenciar produtos, aquisições e estratégias comerciais antes de uma adoção ampla dos computadores quânticos. Para os responsáveis por tecnologia e segurança, a principal consequência é a necessidade de observar simultaneamente a criptografia usada hoje, a arquitetura das redes e o tempo necessário para substituir sistemas antigos.

A operação não significa que ataques quânticos já sejam uma ameaça cotidiana nem que a migração de todas as organizações ocorrerá imediatamente. O acordo, porém, reforça uma mudança de prioridade: proteger dados contra o futuro exige mapear vulnerabilidades no presente. Ao aproximar computação quântica, criptografia pós-quântica e Zero Trust, a IonQ coloca a segurança das redes corporativas no centro da preparação para uma transformação tecnológica que ainda está em desenvolvimento.

Compartilhe este artigo