Brasil acelera corrida pela inteligência artificial com supercomputadores de alta potência

Diego Velázquez

Novos investimentos em infraestrutura de computação podem ampliar a capacidade brasileira de desenvolver IA e transformar setores da economia.

O Brasil está entrando em uma etapa mais estratégica da corrida pela inteligência artificial. Nos últimos dias, ganhou força a informação de que o governo pretende ampliar a infraestrutura nacional de computação de alto desempenho com a aquisição de supercomputadores voltados ao desenvolvimento de IA. A movimentação chama atenção porque, por trás de ferramentas que respondem perguntas, analisam documentos ou automatizam tarefas, existe uma infraestrutura gigantesca de processamento, armazenamento e energia.

A discussão é especialmente relevante para o país porque o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial prevê R$ 23,03 bilhões em investimentos entre 2024 e 2028, incluindo recursos para infraestrutura, formação profissional, inovação empresarial e serviços públicos. Ao mesmo tempo, a internet já alcança mais de 90% da população brasileira com 10 anos ou mais, o que amplia o impacto potencial da transformação digital. A questão agora é entender o que essa infraestrutura pode mudar na prática e por que ela se tornou tão importante para o futuro tecnológico brasileiro.

Por que o Brasil precisa de supercomputadores para avançar em inteligência artificial?

Modelos modernos de inteligência artificial dependem de enorme capacidade computacional. Quanto maior a quantidade de dados utilizada para treinamento e quanto mais sofisticado o modelo, maior tende a ser a demanda por processadores especializados, memória, armazenamento, redes de alta velocidade e sistemas capazes de operar continuamente. Por isso, possuir infraestrutura própria de computação de alto desempenho deixou de ser apenas uma questão acadêmica e passou a fazer parte da estratégia de competitividade de países e empresas.

O próprio governo brasileiro colocou a supercomputação entre as iniciativas estruturantes do PBIA. O plano prevê investimentos de R$ 5,79 bilhões especificamente para infraestrutura e desenvolvimento de IA, enquanto a documentação oficial registra uma previsão de R$ 1,8 bilhão até 2027 para a ação relacionada à aquisição de um supercomputador de porte global voltado à inteligência artificial. A intenção é criar capacidade para processar grandes volumes de dados e desenvolver modelos e aplicações que atendam a necessidades brasileiras, reduzindo parte da dependência de infraestrutura estrangeira.

Esse movimento também pode beneficiar universidades e centros de pesquisa. Em junho, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação anunciou um supercomputador de alto desempenho para a Universidade Federal de Santa Catarina, destinado a pesquisas envolvendo IA generativa, grandes modelos de linguagem, ciência de dados, bioinformática e processamento de imagens médicas. A expansão desse tipo de infraestrutura permite que pesquisadores experimentem modelos mais complexos, processem conjuntos de dados maiores e desenvolvam soluções próprias em áreas nas quais o Brasil possui necessidades específicas.

O que essa infraestrutura pode mudar para empresas e trabalhadores brasileiros?

O impacto de uma infraestrutura nacional de IA não ficará necessariamente restrito aos laboratórios. A capacidade de processamento pode favorecer startups, empresas de tecnologia, universidades e órgãos públicos que precisem desenvolver ou testar soluções de inteligência artificial. Na prática, isso pode estimular aplicações em setores como agricultura, indústria, saúde, finanças, logística, energia e administração pública, especialmente quando houver dados nacionais e problemas que não são bem atendidos por soluções desenvolvidas para outros mercados.

O potencial econômico é relevante. Um estudo divulgado nesta sexta-feira, 14 de agosto, estima que a inteligência artificial poderia acrescentar aproximadamente R$ 986,7 bilhões ao PIB brasileiro entre 2027 e 2030, considerando ganhos de produtividade e incorporação de tecnologia aos ativos produtivos. A estimativa, baseada em metodologia adaptada à realidade brasileira com dados da PNAD Contínua, aponta que cerca de 65% do impacto projetado viria do aumento da produtividade dos trabalhadores. Isso ajuda a explicar por que infraestrutura computacional, qualificação e adoção empresarial aparecem como peças complementares da estratégia nacional.

Para os profissionais, entretanto, a transformação não significa apenas a chegada de máquinas mais potentes. A disponibilidade de infraestrutura precisa ser acompanhada por pessoas capazes de criar, operar, avaliar e aplicar sistemas de IA. Um programa lançado pelo MCTI em junho prevê R$ 129 milhões para formar 1,8 mil desenvolvedores e capacitar outros 4 mil usuários de ferramentas de inteligência artificial até 2028. A tendência é que conhecimentos de dados, automação, programação, segurança e uso responsável de IA ganhem importância em diferentes profissões, inclusive fora do setor tradicional de tecnologia.

Quais são os desafios para transformar supercomputação em benefícios reais?

Construir capacidade computacional é apenas uma parte da equação. Supercomputadores exigem energia, refrigeração, conectividade, manutenção e equipes especializadas, além de ambientes adequados para armazenar e processar grandes volumes de informação. Também é necessário definir quais pesquisas e aplicações receberão prioridade, como os recursos serão compartilhados e de que maneira empresas e universidades poderão aproveitar essa infraestrutura.

Existe ainda uma questão estratégica relacionada aos dados. A inteligência artificial depende de grandes conjuntos de informações para treinamento, funcionamento e avaliação. O Brasil possui uma enorme quantidade de dados produzidos por serviços públicos, empresas, universidades e cidadãos, mas transformar esse patrimônio em soluções úteis exige qualidade, segurança, governança e respeito à legislação de proteção de dados. O próprio governo coloca segurança, proteção de dados e soberania digital entre os eixos da transformação digital brasileira.

Outro desafio é evitar que a infraestrutura avance mais rapidamente do que a capacidade de utilização. Um supercomputador poderoso não gera inovação automaticamente. É necessário criar projetos, formar pesquisadores, apoiar startups, aproximar universidades das empresas e garantir que soluções desenvolvidas em centros tecnológicos cheguem ao mercado e aos serviços utilizados pela população.

Essa preocupação ajuda a explicar a estrutura do PBIA. Dos R$ 23,03 bilhões previstos no plano, R$ 13,79 bilhões estão destinados à inovação empresarial, R$ 1,76 bilhão à melhoria dos serviços públicos e R$ 1,15 bilhão à difusão, formação e capacitação em IA. O objetivo, portanto, não é simplesmente comprar máquinas, mas construir um ecossistema capaz de transformar capacidade computacional em produtividade, pesquisa e novos serviços.

A tendência para os próximos anos é que a infraestrutura de inteligência artificial se torne tão estratégica quanto conectividade e armazenamento de dados. O Brasil já ultrapassou 90% de usuários de internet entre a população de 10 anos ou mais, enquanto 95% dos domicílios tinham acesso à internet em 2025. O próximo desafio será fazer com que essa população conectada também se beneficie de uma economia cada vez mais baseada em IA.

Se os investimentos em computação, qualificação e inovação avançarem de forma coordenada, o país poderá ampliar sua participação na criação de tecnologias, e não apenas no consumo de ferramentas estrangeiras. Universidades poderão desenvolver pesquisas mais ambiciosas, startups terão novas oportunidades e empresas poderão automatizar processos com maior eficiência. Para o consumidor brasileiro, os efeitos tendem a aparecer gradualmente em serviços digitais mais inteligentes, atendimento automatizado, aplicações de saúde, educação personalizada e novas soluções financeiras. A corrida pela IA, portanto, não será definida somente pela potência dos computadores, mas pela capacidade de transformar essa potência em inovação acessível e útil para a sociedade.

Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) — Plano Brasileiro de Inteligência ArtificialMCTI — PBIA prevê supercomputador e R$ 23 bilhões em investimentosFolha de S.Paulo — Brasil deve adquirir dois supercomputadores de IA por mais de R$ 2 bilhõesFolha de S.Paulo — IA pode acrescentar R$ 986,7 bilhões ao PIB brasileiro até 2030IBGE — Dados sobre acesso à internet no BrasilLaboratório Nacional de Computação Científica (LNCC) — Plano Brasileiro de Inteligência Artificial

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