O radiologista como consultor clínico: Quando o laudo vai além do documento

Diego Velázquez
Gustavo Khattar de Godoy

Por muito tempo, o laudo radiológico ocupou um lugar periférico na relação médico-paciente. No entanto, Gustavo Khattar de Godoy, com doutorado pela UNICAMP e pós-doutorado pelo Johns Hopkins Hospital, representa uma geração de profissionais que enxerga o laudo não como um produto final, mas como o início de uma conversa clínica. 

Essa postura confronta a realidade de que, durante muito tempo, o radiologista permaneceu invisível no processo clínico, uma presença técnica cuja contribuição raramente ultrapassava os limites do papel impresso. Esse modelo está sendo questionado, e com razão. Portanto, entender o que está mudando nessa relação e por que isso importa para o paciente é o que este artigo se propõe a discutir.

O laudo como ponto de partida, não de chegada

Existe uma distância considerável entre descrever o que se vê em uma imagem e comunicar o que esse achado significa para a conduta clínica. Durante décadas, a radiologia se especializou no primeiro e deixou o segundo a cargo do médico solicitante. O problema é que essa divisão, aparentemente lógica, frequentemente gera ruído: laudos tecnicamente corretos, mas clinicamente pouco úteis, que descrevem achados sem hierarquizá-los, sem contextualizar sua relevância e sem oferecer ao clínico a orientação que ele realmente precisa para tomar uma decisão.

A mudança que se observa nos serviços de radiologia mais avançados aponta em outra direção. Isto é, o laudo passa a incorporar recomendações de conduta, sugestões de correlação com dados clínicos e, no momento em que necessário, alertas explícitos sobre achados que exigem atenção imediata. Na perspectiva de Gustavo Khattar de Godoy, essa transição não representa uma invasão do território do clínico, mas uma ampliação da contribuição do radiologista dentro de uma equipe que, para funcionar bem, precisa que cada especialista entregue o máximo do seu conhecimento.

Gustavo Khattar de Godoy

O que define um radiologista com perfil consultivo?

O perfil consultivo exige do radiologista uma capacidade que vai além da interpretação de imagens: a de compreender o contexto clínico do paciente, identificar quais achados são realmente relevantes para aquele caso específico e comunicar suas conclusões de forma que o médico solicitante possa agir com mais segurança e precisão. O problema é que essa habilidade não é ensinada nos currículos tradicionais de radiologia, e sua ausência explica por que tantos laudos, mesmo tecnicamente impecáveis, não geram o impacto clínico que poderiam.

Na avaliação de Gustavo Khattar de Godoy, a formação acadêmica avançada tem papel central no desenvolvimento desse perfil. A passagem por programas de pós-graduação rigorosos, como os vivenciados na UNICAMP e no Johns Hopkins Hospital, expõe o radiologista a discussões multidisciplinares, a casos de alta complexidade e a uma cultura clínica que valoriza a integração entre especialidades. Dessa forma, essa experiência forma um profissional capaz de dialogar com cardiologistas, pneumologistas e oncologistas em linguagem comum, tornando o laudo um elo de conexão, e não um documento isolado.

Por que essa mudança beneficia diretamente o paciente?

A resposta mais direta é que decisões clínicas melhor informadas produzem melhores desfechos. No momento em que o radiologista comunica com clareza a relevância de um achado, hierarquiza o que é urgente e o que pode aguardar acompanhamento, e sugere a investigação complementar mais adequada, o médico solicitante ganha tempo e segurança. Assim, esse ganho se traduz em condutas mais rápidas nos casos críticos e em menos investigações desnecessárias nos casos benignos.

Conforme destaca Gustavo Khattar de Godoy, o radiologista consultivo também reduz um problema silencioso e frequente nos serviços de saúde: a perda de achados incidentais relevantes que, por falta de uma recomendação clara no laudo, acabam não sendo seguidos adequadamente. Um nódulo pulmonar identificado, mas não acompanhado, é um diagnóstico precoce que não aconteceu. Evitar esse desfecho é, em última análise, a responsabilidade maior de quem assina o laudo.

O laudo como ato clínico

Reduzir o laudo a um registro técnico é desperdiçar o potencial de uma das especialidades com maior capacidade de influenciar decisões clínicas na medicina contemporânea. Como ressalta Gustavo Khattar de Godoy, radiologista que assume o papel de consultor, não abandona o rigor diagnóstico: ele o expande, colocando-o a serviço de uma prática médica mais integrada, mais comunicativa e, inevitavelmente, mais eficaz para o paciente que está do outro lado da imagem.

Autor: Diego Rodríguez Velázquez

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