Pesquisa global da Deloitte revela que 42% das companhias no Brasil já usam inteligência artificial para transformar seus negócios — índice acima da média mundial.
A inteligência artificial deixou de ser assunto de conferências de tecnologia e passou a moldar decisões dentro de empresas brasileiras de setores tão diferentes quanto saúde, varejo, serviços financeiros e agronegócio. O país que ainda é visto por muitos como atrasado na adoção de novas tecnologias surpreende em 2026 com dados que colocam as organizações nacionais à frente da média global em um indicador crucial: o uso da IA para transformação estrutural dos negócios.
Mas esse avanço carrega uma contradição que pode comprometer o futuro próximo. Ao mesmo tempo em que as empresas aceleram a adoção da tecnologia, o mercado brasileiro enfrenta um déficit crescente de profissionais capacitados para operá-la. E esse gargalo tem nome, custo e consequências que vão muito além do setor de TI.
Brasil acima da média global na adoção estratégica de IA
A edição 2026 do relatório global “State of AI in the Enterprise”, do AI Institute da Deloitte, contou com a participação de mais de 3 mil executivos de 24 países, incluindo 115 brasileiros. O estudo revelou que 42% das empresas brasileiras empregam IA de forma transformadora, índice acima da média global de 34%. Isso significa que o Brasil não está apenas experimentando a tecnologia — está usando-a para redesenhar processos centrais, criar novos modelos de valor e tomar decisões com base em dados. Deloitte
Os efeitos aparecem em áreas concretas. Quando questionados sobre quais áreas foram mais impactadas pela tecnologia, 59% dos respondentes brasileiros apontaram a melhoria na tomada de decisões e na geração de insights a partir de dados, acima da média global de 53%. Além disso, 44% destacaram avanços no relacionamento com clientes, frente a 38% no cenário internacional. Deloitte
As expectativas para o futuro próximo são ainda mais expressivas. Entre os brasileiros, 87% acreditam que a IA impulsionará o crescimento da receita, percentual superior à média global de 74%. Esse otimismo reflete tanto os resultados já colhidos quanto a percepção de que a tecnologia ainda está longe de seu potencial máximo nas organizações nacionais. Deloitte
O Plano Brasileiro de IA e os desafios regulatórios
No plano governamental, o país também se movimenta. O Brasil conta com um Plano Brasileiro de Inteligência Artificial que prevê investimentos de R$ 23 bilhões até 2028. A iniciativa busca estruturar uma base nacional para o desenvolvimento da tecnologia, reduzir a dependência de soluções estrangeiras e criar condições para que startups e empresas brasileiras possam competir em escala global. Alura
No campo regulatório, o avanço é mais lento. No Brasil, embora o marco legal específico de IA ainda esteja em discussão no Congresso, a LGPD já impõe limites importantes para decisões automatizadas baseadas em dados pessoais. Também tramita o PL 2338/2023, que aborda o uso ético e responsável da inteligência artificial, sinalizando a tendência de avanço regulatório sobre classificação de riscos, governança e responsabilização. FIA
Enquanto a regulação não se firma, a responsabilidade recai sobre as próprias organizações. Empresas que adotam práticas de governança de IA — auditoria de algoritmos, explicabilidade das decisões e políticas claras de uso ético — tendem a ganhar vantagem competitiva e reduzir riscos jurídicos em um ambiente que tende a se tornar mais fiscalizado.
A crise silenciosa de talentos que pode frear tudo
Por trás dos números positivos, existe um problema estrutural que ameaça desacelerar o avanço brasileiro. Apesar da expansão da tecnologia, o Brasil ainda enfrenta um déficit significativo de profissionais capacitados em inteligência artificial. Esse vácuo de talento não é apenas uma questão de mercado de trabalho — é um risco estratégico para as empresas que investem pesado na tecnologia sem ter os recursos humanos para extrair valor real dela. TechTudo
A formação de profissionais especializados exige tempo, estrutura acadêmica e incentivos que ainda não estão plenamente desenvolvidos no Brasil. Universidades públicas e privadas correm para criar cursos e especializações na área, mas a velocidade da demanda do mercado é maior do que a capacidade de resposta do sistema educacional. Enquanto isso, as empresas disputam os poucos talentos disponíveis com salários crescentes — o que gera inflação de custos e concentração de capacidade em grandes corporações.
A equação é delicada: o Brasil tem uma das maiores taxas de adoção estratégica de IA do mundo, mas pode não ter profissionais suficientes para sustentar esse crescimento nos próximos anos. Resolver esse gargalo é o verdadeiro teste da maturidade tecnológica do país.
Fontes: deloitte.com/br | alura.com.br | techtudo.com.br | fia.com.br
Autor: Diego Rodríguez Velázquez

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