Poucos temas dividem tanto os analistas do mercado financeiro brasileiro quanto a pergunta sobre o horizonte dos juros. Felipe Rassi, especialista em créditos estressados, pondera que, independentemente do debate sobre o patamar exato da Selic nos próximos trimestres, a questão mais relevante para o mercado de NPL não é quando os juros vão cair, mas o que acontece com as estruturas de crédito, precificação e recuperação enquanto eles permanecem elevados.
A Selic chegou a 15% ao ano entre junho de 2025 e março de 2026, o maior nível em quase duas décadas, e mesmo após os cortes iniciados em março, as projeções do mercado apontam para uma taxa em torno de 14% ao final de 2026. O cenário não é de crise aguda. É de adaptação estrutural, e essa distinção muda tudo na forma de operar.
Conheça mais sobre como esse ambiente redefine as estratégias no mercado de crédito não performado.
Por que os juros altos no Brasil têm natureza estrutural, não apenas conjuntural?
A narrativa mais comum sobre os juros brasileiros os trata como resposta temporária à inflação, reversível assim que os índices de preços recuarem para dentro da meta. Há dois vetores que funcionam como piso estrutural dos juros no Brasil: o primeiro é o fato de todo o combate à inflação estar centrado no câmbio, com a Selic operando como atrativo de capital externo via carry trade; o segundo é externo, com o Federal Reserve mantendo juros elevados e deixando pouco espaço para que países emergentes reduzam suas taxas sem consequências cambiais.
Conforme pondera Felipe Rassi, o mercado de NPL, que se organiza esperando uma reversão rápida da política monetária, opera com uma premissa que os dados não sustentam. O crédito ao setor privado no Brasil corresponde a 76% do PIB, bem abaixo de países como o Chile, com 103%, e muito distante das economias centrais, como os Estados Unidos, onde se aproxima de 200%. O Brasil não sofre de falta de demanda por crédito, mas de um custo estruturalmente elevado que inibe sua expansão. Essa assimetria não se resolve em um ou dois ciclos de corte.
O que juros altos por mais tempo fazem com o estoque de NPL?
O efeito mais imediato de juros estruturalmente elevados sobre o mercado de crédito não performado é o aumento contínuo do estoque de ativos disponíveis para cessão. Juros elevados encarecem o crédito, restringem o capital de giro, reduzem a margem de erro das empresas e forçam uma gestão mais eficiente dos recursos financeiros, pressionando especialmente os pequenos negócios dependentes de financiamento bancário. Para o mercado de NPL, esse mecanismo funciona como gerador permanente de novos ativos.

Na avaliação de Felipe Rassi, o ponto crítico não está no volume crescente de ativos estressados, mas na qualidade desse estoque. Juros altos por períodos prolongados produzem carteiras com perfis de devedor mais deteriorados, maior acúmulo de encargos secundários e garantias progressivamente desgastadas pelo tempo de inadimplência. Empresas com dívidas pós-fixadas, setores com baixa margem de Ebitda e estruturas de capital esticadas concentram o risco mais relevante nesse ambiente, e são exatamente essas carteiras que chegam ao mercado secundário com maior frequência.
Como o mercado de NPL está respondendo ao novo patamar de juros?
O mercado de cessão de créditos não performados projeta crescimento de 73% em 2026, com volume estimado de R$52,3 bilhões, segundo levantamento da Deloitte, consolidando um ciclo de expansão que se apoia justamente no ambiente de crédito restrito e inadimplência elevada. O crescimento do mercado, nesse sentido, é em parte consequência direta da política de juros altos, e não uma anomalia que desaparece com a normalização monetária.
Tal como retrata o especialista no mercado financeiro, Felipe Rassi, os operadores mais preparados para o ambiente atual são os que desenvolveram modelos de precificação que incorporam o custo do capital elevado como variável permanente, e não como distorção temporária. Carteiras precificadas com a expectativa de queda rápida dos juros tendem a apresentar retornos abaixo do projetado quando essa queda não se materializa no prazo esperado. A adaptação real ao cenário de juros estruturalmente altos passa por revisão de modelos, não apenas por aguardar um ciclo mais favorável.
O mercado de NPL está, de fato, preparado?
A resposta honesta é: parcialmente. Duas realidades coexistem em paralelo no sistema financeiro brasileiro: os grandes bancos reduziram exposição a créditos mais arriscados e reportam melhora no NPL, enquanto fintechs e bancos menores operam com níveis estruturalmente mais altos de inadimplência, respondendo por parcela desproporcional do estoque de crédito não performado do sistema.
Em síntese, Felipe Rassi evidencia que a preparação do mercado de NPL para um ambiente de juros estruturalmente elevados não se mede pelo volume de transações, mas pela sofisticação dos modelos de avaliação, pela robustez dos processos de recuperação e pela capacidade de diferenciar ativos com recuperabilidade real daqueles que apenas parecem baratos pelo desconto de aquisição. O volume transacionado no Brasil ainda é significativamente menor do que em mercados europeus maduros, o que indica que há espaço relevante de crescimento, mas também que a maturidade operacional necessária para absorver esse crescimento com qualidade ainda está em construção.

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